Contemplado pela Lei Aldir Blanc, grupo de Anápolis realiza intercâmbios com mestres nacionais e prepara novas ações após participação em evento na Chapada dos Veadeiros
Fundado em 2012 por Mestre Tuísca, o Jongo Iracema, primeiro grupo contemporâneo do estado dedicado a esta manifestação de matriz afro-brasileira, completou 13 anos em 2025. Embora nascido no Sudeste, a presença do jongo em Goiás marca a diversidade cultural goiana e dá visibilidade às expressões negras que constituem o estado.
Contemplado pela Lei Aldir Blanc, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura de Goiás, o “Projeto Continuança” possibilita a constância das atividades do Jongo Iracema que, ao longo do ano, oferece oficinas para comunidade e se apresenta em grandes eventos culturais. Em 2025, intercâmbios com grupos tradicionais, como o Jongo da Serrinha (RJ), enriqueceram a prática local.
“Essas trocas renovam saberes, conectam Anápolis e Goiás a territórios tradicionais do jongo e ampliam o repertório artístico-cultural do grupo”, afirma a produtora cultural e pesquisadora Andreza Rigo.
“O Continuança surge da ideia de seguir em frente, de sustentar a base do grupo Jongo Iracema, da necessidade de manter vivas suas ações de forma contínua e estruturada. Nossa missão é fortalecer o jongo como ferramenta de resistência cultural e como linguagem artística em nosso território”, reforça.
O encontro tão esperado com o Jongo da Serrinha ocorreu no mês de agosto, no Rio de Janeiro.
“Era um sonho do Mestre Tuísca guardado há quase 13 anos”, conta Andreza.
Eles visitaram a comunidade, a Casa e o Museu do Jongo e jongaram junto com o grupo na Feira das Yabás, patrimônio cultural imaterial do Rio.
“O acolhimento do Jongo da Serrinha nos trouxe o sentimento de pertencimento e nos encorajou a permanecer e ampliar esse caminho. Estar junto representou uma validação simbólica da nossa trajetória”, conta o produtor cultural Danilo Costa.
Experiência ancestral na Chapada dos Veadeiros
Em setembro, o grupo participou do XXV Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros. Lá, o Jongo Iracema ministrou uma oficina e viveu uma experiência marcante ao lado da Mestra Jociara Souza, do Jongo Filhos da Semente (SP).
“É uma alegria fazer parte do evento neste ano em que completa 25 anos. Foi a segunda vez que participamos. Na primeira nos apresentamos, em 2023, e agora fomos para oferecer uma oficina de jongo para a população”, explica Andreza.
“Nossa participação foi também para aprender, escutar e incorporar novas vivências. O Encontro proporcionou muitas trocas com outros Mestres e grupos”, completa.
A artista e empresária Thalita Tinoco, que integra o Jongo Iracema desde 2016, compartilha a emoção do momento: “Foi um encontro muito bonito [com a mestra Jociara], uma experiência magnífica de poder apresentar o nosso Jongo pela Chapada. Para Carlos Antônio dos Reis, o Tuísca, liderança do Jongo Iracema, mestre de Capoeira Angola, cantor, compositor e percussionista, a experiência foi profundamente significativa.
“Jociara é uma mestra de tradição, nascida no berço do Jongo. Foi uma surpresa muito especial ela me reconhecer como mestre de jongo. Fiquei alegre, e agora carrego uma responsabilidade ainda maior, mas com a mesma humildade de sempre, após esse reconhecimento”. Sobre a manifestação cultural, ele define: “Jongo é afro-brasileiro, é resistência, é ancestralidade, é a força da palavra, é família, é alegria, é dança. Estamos aqui como resistência, mostrando que o Jongo está aqui, vivo”.
Novos passos
Após a bem-sucedida participação no Encontro e o intercâmbio na Serrinha, o grupo se prepara para dar continuidade às suas atividades. Em breve, o Jongo Iracema deve realizar novas oficinas abertas ao público, ampliando o acesso a essa manifestação cultural em Goiás.
Mas o que é o jongo?
Trata-se de uma expressão cultural afro-brasileira que se formou durante o período colonial a partir da síntese de tradições de diferentes povos africanos escravizados. Envolvendo dança circular, canto e percussão de tambores, o jongo é considerado uma das matrizes do samba. A presença histórica do jongo em Goiás é foco de estudos.
Citando pesquisadores, o grupo aponta que Edison Carneiro (1959), com base em Melo Franco (1876), registrou uma dança chamada Caxambu no Vale do Paranã, região de Formosa. Adailton da Silva (2006) e Natália J. Lima (2024) também indicam vestígios da prática em Porangatu e na própria Anápolis por volta de 1990. O jongo foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan em 2005, registrado no Livro de Registro das Formas de Expressão, o que atesta sua importância para a cultura nacional.


