O living “Entre Tempos”, projetado pelas arquitetas Flávia Koloske e Tainá Pravato para a CASACOR Florianópolis 2025, apresenta 82m² distribuídos em um ambiente multifuncional. Nesse espaço, integram-se área gourmet, sala de estar e jantar, compondo uma proposta que valoriza a convivência e a versatilidade em sua utilização. Além disso, o projeto inclui dois recantos de introspecção concebidos como áreas de contemplação, equipadas com poltronas individuais para momentos de pausa. A proposta explora diferentes dimensões do habitar contemporâneo ao equilibrar momentos de convívio e sociabilidade com a necessidade de recolhimento e pausa.
Inspirado pelo tema da mostra, “Semear Sonhos”, o ambiente propõe uma reflexão sobre a dualidade entre essencial e supérfluo, duradouro e efêmero. A passagem do tempo surge como fio condutor, materializada na escolha de elementos naturais que carregam memória e autenticidade. O conceito se materializa em um estilo sofisticado e atemporal, que valoriza a materialidade autêntica e destaca a madeira como principal protagonista do ambiente. Ademais, essa escolha dialoga com soluções de design contemporâneo desenvolvidas em parceria estratégica com a Madeireira Catarinense.
O espaço foi idealizado para um morador contemporâneo que procura equilíbrio entre vida social ativa e momentos necessários de recolhimento. Além disso, trata-se de alguém que cultiva ideias, projetos e memórias, além de valorizar profundamente a autenticidade e a verdade dos materiais. Com isso, encontra prazer tanto no encontro coletivo quanto em pausas individuais para leitura, meditação ou café. Ademais, a planta privilegia fluidez de circulação, conforto acústico e acessibilidade universal, permitindo que pessoas com diferentes necessidades usufruam integralmente da experiência. Por fim, texturas aplicadas em paredes, móveis e painéis ampliam a percepção tátil e tornam o espaço inclusivo também para pessoas com deficiência visual.
Design sensorial e sustentabilidade do living “Entre Tempos”
A paleta neutra, composta por tons terrosos, beges e fendi, é enriquecida por texturas minerais e fibras naturais, criando um cenário acolhedor e sensorial. Os painéis de madeira natural, cuidadosamente trabalhados em superfícies abauladas, imprimem ritmo arquitetônico marcante em todo o ambiente projetado. Assim, sugerem um movimento orgânico da natureza, como se representassem o germinar constante dos sonhos humanos. O piso em pedra natural, aliado às rochas aplicadas na cozinha, reforça a ideia de solidez e permanência no projeto arquitetônico. Em contraste, a leveza da bancada suspensa simboliza poeticamente o conceito: “um pé fincado na terra e o outro flutuando no etéreo”.
A iluminação foi tratada como recurso narrativo, estruturada em camadas que destacam texturas, criam atmosferas intimistas e adaptam o ambiente a diferentes momentos. A malha de madeira instalada no teto da cozinha possibilita uma iluminação indireta difusa, criando atmosfera acolhedora e elegante no espaço. Além disso, a iluminação em LED e a automação de cenários otimizam o consumo energético de forma eficiente. Essa atenção à eficiência aparece no uso de madeira certificada, em soluções de baixo impacto e em materiais de manutenção simples, valorizando práticas mais sustentáveis. Ademais, propõe um novo olhar sobre consumo, sugerindo que investir em peças duráveis e herdáveis seja alternativa consciente ao ciclo acelerado do descartável.
Entre os destaques está a mesa de jantar desenvolvida em colaboração com a Residual Design e a MG3 Mármores. Nesse sentido, a base escultórica, formada por um tronco de madeira reaproveitado e trabalhado artesanalmente, sustenta um tampo de quartzito Capadócia, cuja superfície exibe veios fluidos e tonalidades quentes. Assim, a peça sintetiza memória, inovação, natureza e sofisticação, transformando-se em um dos pontos centrais do espaço.
Permanência e arquitetura emocional
O mobiliário solto, com peças assinadas por nomes como Sergio Rodrigues e Estudiobola, reforça a ideia de permanência e design atemporal. Esses objetos ultrapassam a função utilitária e se tornam heranças afetivas, capazes de atravessar gerações. Tecidos aplicados à marcenaria e ao mobiliário convidam ao toque e suavizam superfícies, ao mesmo tempo em que contribuem para o desempenho acústico do espaço.
Mais do que um exercício estético, “Entre Tempos” se firma como manifesto sobre o papel da arquitetura diante da impermanência contemporânea. O projeto desperta reflexões importantes sobre consumo responsável e a durabilidade dos objetos que fazem parte do cotidiano das pessoas. Assim, propõe que investir em peças herdáveis e materiais autênticos representa resistência consciente ao ciclo do descartável. A principal tendência destacada é a valorização da materialidade verdadeira e do design brasileiro atemporal, posicionando-se em contraponto claro às soluções meramente efêmeras. Com isso, surge uma arquitetura emocional e essencialista, capaz de unir texturas, mobiliário assinado e soluções construtivas de impacto.
O processo criativo nasceu de reflexões fragmentadas, quase como versos soltos que, ao se entrelaçarem, deram forma ao conceito do espaço. Frases como “viver é melhor que sonhar” e a trilha sonora marcada pela voz visceral de Nina Simone em Baltimore traduziram angústias coletivas e esperanças latentes, reforçando a potência da arte como inspiração. A partir dessas provocações, o projeto assumiu um caráter de questionamento: quem governa realmente o futuro que desejamos para o planeta? Nesse cenário de incertezas e escassez de recursos, a arquitetura se coloca como manifesto capaz de resistir e reafirmar a permanência inscrita na verdade dos materiais.








Fotos: Fábio Jr Severo

